por Daniel André Teixeira'


É o teu jeito de ser.

É o teu modo de ver o Mundo.

É o teu sarcasmo e a tua resposta sempre pronta a picar-me. 

É o orgulho patente que usas como medalha e com todo o vigor quando o momento assim o pede.

É o olhar sereno que me dás para fazer acordar o optimista em mim.

É a serenidade de quem a realidade parece não tocar, como um escudo que tens contra tudo o que parece errado.

É a maneira como me transmites os teus dias menos bons.

É tudo aquilo que me transmites e que leio em ti mesmo sem soltares uma palavra.

É a tua independência que cria o charme.

É o teu toque que me faz te querer num momento sem prazo para acabar.

É a inteligência afiada de mulher resguardada num sorriso sem par. 

É o teu bem-estar que me faz repousar com a tranquilidade de quem sabe que o dia é melhor contigo assim.


 Tudo isso torna-te a mulher que me encanta;
Tudo isso te torna essencial na minha vida;
Tudo isso me faz lutar por ti a cada dia;
Tudo isso me faz gostar de ti como eu gosto.





Podia ser como uma outra qualquer viagem de comboio, com início e fim mais que traçado levando a multidão que se juntou entre as carruagens num itinerário mundano e normal, mas não naquela noite.

Já com o escuro exterior embutido e com apenas as luzes da rua flagrantes a aparecerem como flashes entre a velocidade que a viagem pedia ele ali estava. Era a atracção da primeira carruagem. Sereno, sozinho e logo na primeira cadeira. Com ele apenas tinha um saxofone já preparado à sua frente. Apesar de incompleto (faltava a parte superior do sopro para criar o som) isso não foi impedimento para que o rapaz simulasse todas as notas, enquanto tocava nas teclas, ditando a pauta que só o seu cérebro sabia e lhe ditava.

Tocava veemente nas teclas do saxofone enquanto se punha de pé. Em seu redor as atenções estavam mais do que concentradas. Podia pensar-se, quem sabe pela hora ou pelo cansaço de mais um dia, que era apenas mais um louco de rua quanto mais não fosse pelo olhar directo e sério do rapaz que se mantinha focado na melodia silenciosa que criava.
Quem sabe se na sua mente não lhe passou o legado de Miles Davis ou John Coltrane e naquela viagem lá lhes fez o tributo à sua maneira.
Quase vinte minutos de "espectáculo" com um auditório improvisado.

A viagem terminou mas o jovem saxofonista não se fez rogado e todos os passos que deu desde a saída do comboio até ao fim da estação foram acompanhados com o toque dos seus dedos nas teclas, a melodia ainda não terminou para ele e era a sua companheira de percurso.

A prova que para se fazer o que se gosta não precisamos de toda a perfeição do momento, apenas o necessário.


Falou-me de algo único. Quem me seduziu com a ideia bem me tinha avisado que Estrasburgo tinha um encanto natural nesta época natalícia. Tinha toda a razão do seu lado. É como se o Natal fosse criado ali.

Estrasburgo, ainda que coberta pelas nuvens onde o sol lá se ia mostrando entre o frio que o vento trazia, delicia quem pelas suas ruas passeia. Tem a sua magia própria.
O cheiro do vinho quente, as bancas a assediar as pessoas com tanto presente ou souvenir e claro todos os doces e gastronomia alsasiana (choucroute ou tartes flamblé) que fazem parar para matar saudades ou simplesmente arriscar uma nova experiência. Enquanto te vais aquecendo com um sumo de laranja quente e um bretzel a acompanhar passeias pelas ruas enfeitadas a rigor onde cada loja mostra ornamentos diferentes de como a magia do Natal pode ser bonita e te faz parar a cada dez passos para tirares uma foto.
A preponderância que a Catedral de Notre Dame tem dá a mão às várias bancas que em seu redor embelezam à sua maneira as ruas e torna apetecível todos os modos de captares aquele momento para a posterioridade.

À medida que a noite vai chegando vais percebendo ainda mais porque lhe chamam a Cidade do Natal. As ruas ganham uma segunda vida, as luzes e enfeites tornam-se protagonistas entre os cheiros da gastronomia. Torna-se difícil escolheres onde está a melhor decoração ... até veres a árvore. A imagem que ilustra este texto é a melhor das atracções. Uma árvore de Natal natural que, aliada à sua altura, é iluminada de uma forma soberba e te faz parar para que procures o melhor modo de a documentares. Em plena praça é ela a rainha.

A ideia que ficas quando passeias nas ruas de Estrasburgo durante a noite é quase como alguns dos contos clássicos fosses criados ali. Nas ruas de Petit France percebes que a Bela e o Monstro podiam ter sido trazidos à vida real tal é a parecença com o conto animado que se conhece. No fundo transmite-te a sensação de um pequeno escape àquela realidade mundana de confusão e rotina e é sem dúvida algo que te reconforta e fica na cabeça.

Falou-me de algo único. E tinha razão.
Quand je me souviens de Noël, je me souviendrai de Strasbourg.




Ele pediu-lhe um momento.

A oportunidade de lhe mostrar que era diferente.
Para ser aquele que ainda não tinha cruzado o caminho que ela criava como só seu.
A prontidão em forma de pessoa, preparado para lhe dar aquilo que ninguém antes fez.
Loucura misturada com determinação, pedido apenas o tempo para se mostrar a ela.

Pediu-lhe esse tempo no espaço para a encantar. Para ser o tal.
Ouvi-la, saber o que mexe com ela, os seus sonhos e tormentos, os medos e viagens de quem timidamente lhe dá a mão enquanto sorri com a tranquilidade que só ela lhe dá.
Pediu para entrar no seu mundo, como convidado de gala e espectador, enquanto ela se deixa levar no seu simples mundo que se funde a cada dia com as paisagens que vai carimbando com os seus passos.

Olha-o de um modo que o faz repousar, acreditar que está no sítio certo sempre.
Faz acelerar o tempo, corre como um louco, fazendo com que esse momento tenha de ser tudo o que ele quis, para que ela não perca nada do que tem direito. Aproveita a chance e procura o seu beijo, aquele mimo e privilégio que só a ele está destinado.

Ele pediu-lhe um momento.
Ela fez parar o tempo para que esse momento não acabasse.



Um momento a sós contigo.

Um passeio ao teu lado enquanto as nossas mãos se procuram.

A oportunidade de te olhar nos olhos e sentir a tranquilidade que emanas.

Uma chance de poder vislumbrar o teu sorriso que me torna melhor.

A suavidade de um abraço teu.

A sorte de quem toca no teu corpo enquanto te beija.

As pausas para ver o mundo só nosso entre gargalhadas, olhares e promessas.

O encontrar conforto nos locais onde paramos, como quem faz parar o tempo para nosso deleite.

Aquele querer desmesurado que a noite não termine.

Aquele último beijo de despedida com sabor a promessa que te voltarei a sentir.