por Daniel André Teixeira'



Existe sempre na mente de um qualquer escritor o ideal de criar uma história. História essa que faz prender o leitor com as palavras certas e sedutoras, mas também nela existe a vontade de passar uma mensagem seja ela idílica, de lição ou simplesmente uma fase de vida.

Desta vez a minha mente não criou nada, porque o que se segue é real. Somente me atrevo a descrever sendo o mais fiel aos factos possível perante tamanha situação. É a história verídica de um homem, um testemunho de alguém que não recuou perante um desafio e vê nesse desafio de vida mais uma oportunidade de superação e de conquista pessoal. O seu nome é Nelson Rocha.

Sempre foi um inconformado com a vida, ficar quieto nunca foi o seu estilo. Sempre procurou fazer algo novo, entre paixões e opções de carreira, que o pudesse definir como uma pessoa feliz. Artes marciais (praticante e professor), fotografia, curtas metragens e videoclips ... uma panóplia de aventuras, todas com toda a entrega. Sempre directo e orgulhoso do seu comportamento (e temperamento) pouco submisso foi amealhando projectos novos que o levaram a conhecimentos, contactos e vivências enriquecedoras.

Outrora guerreiro noutras modalidades de arte física eis que surge o regresso ao tapete, mas nada é tão simples como parece.

Vai desbravar uma arte de combate que nunca competiu, o Jiu Jitsu Brasileiro, uma arte marcial onde a luta no solo impera e a submissão do adversário é o trunfo para a vitória. Aquele com mais técnica sai vencedor numa luta fatigante. É um recomeço, e como todos os guerreiros há "cicatrizes" que ficam de batalhas passadas. Para poder concretizar este sonho de singrar noutra modalidade Nelson teve que procurar em si o poder de superação para ultrapassar uma lesão grave e não olhou a meios para o fazer. Com uma personalidade "training" bem acentuada recuperou a forma física com uma revolução a nível de fitness e com os hábitos alimentares necessários para o seu corpo ser bem nutrido e preparado para cada sessão de treino, para cada batalha que se avizinha. 

Tenho o privilégio de poder chamar amigo ao Nelson e não tenho dúvidas que ele a cada dia que passa se sente mais preparado. Não só pela batalha física que teve de aguentar, mas porque a sua personalidade e querer mental é fortíssimo e vai querer que esta experiência seja a melhor possível. Mais uma para o seu currículo invejável nas artes marciais. O tatame chama por ele
Ele vai voltar à competição este ano e logo numa área "desconhecida" para ele ... não podia haver melhor desafio.

Que venham essas batalhas, desejo-te a melhor das sortes meu amigo.



Por vezes precisamos de um olhar para nos rendermos a alguém. Ao contemplar aquela pessoa que nos mexe ficamos melhor, seja pela maneira como sorri, como os olhos reluzem ou apenas pelo modo o cabelo dela se mexe. Neste caso o amor até pode ter começado assim, mas sobrevive de outra maneira, com o toque. E é aí onde está a magia.

Passeavam de mão dada numa qualquer destas noites frias de Inverno. Agasalhados, para que o frio não vencesse a vontade do passeio, mas sem nunca deixar que aquelas mãos juntas se largassem. Na outra mão de cada um estava a fiel varinha, que apalpava o caminho e os guiava. Apesar do contratempo que podia ser não poder contemplar o que os rodeava isso não eram impedimento para que sorrissem enquanto trocavam palavras rotineiras e carinhos.

Não se subjugaram ao inferno que podia ser o ter perdido a visão, ou se passaram essa guerra venceram-na sem contestação. Ao ponto de conseguirem brincar com a situação quando ele a larga para colocar um copo de plástico num caixote do lixo e ela exclama "Vê lá se pelo caminho não vês uma mulher jeitosa e te perdes" ... o sorriso dele ao ouvir aquilo arrebatou-me. Era clara a ligação, algo que dura há muitos anos e que só os tem unido ainda mais. Talvez por partilharem a mesma deficiência, ou simplesmente porque se amam apesar disso.
Seguiram rua fora, ao som do toque das varinhas sem esbarrar na mundana multidão que vinha na direcção oposta. Todos no mesmo mundo, na mesma rua, mas eles pareciam num momento só deles.


 Estavam mais felizes do que muitos casais "normais". Numa sociedade onde nos acostumamos a ter tudo como garantido é refrescante ver que por vezes, aqueles que não têm tudo isso conseguem nos ensinar os valores certos.


A porta do carro bate. A chuva cai incessante enquanto ele caminha para a porta quando o escuro da noite se torna suavemente no cinzento da manhã.

Ao subir as escadas do prédio tenta silenciosamente procurar as chaves e abrir a porta. Entre passos bem ritmados procura passar o seu hall de entrada e chegar ao quarto para poder repousar. Mas a rotina continua, ela está a acordada. 

Encostada à porta da sala fica a olhar para ele, entre o lamento e a raiva de quem volta a esperar pelo marido a altas horas da noite. Lá voltou de mais uma noite de devaneio, a cheirar a álcool e a fragrância de outras mulheres. Ela já não tem força para discutir, para criar uma cena, para reprimir tal acto de alguém que outrora lhe disse que só conseguia amar uma mulher. Só sente tristeza do momento que vive; Ele tem tem o semblante de quem desistiu, tanto de procurar uma explicação do que faz e do matrimónio que contraiu. Já não vê nela o que o seduz e vê noutros vícios o escape de uma vida que lhe sabe a miserabilidade.

Uma noite igual a muitas outras. A chama de uma vida a dois tornou-se um tornado de emoções pouco saudáveis para um homem que nem consegue conviver com a esposa e tenta atrasar sempre o seu regresso a casa desviando-se sempre por caminhos dúbios e para uma mulher que já não consegue esconder o desgosto de ver um homem bem diferente daquele que já amou. A cola que ainda une um casamento em cacos é o irresponsável orgulho de quem não tem a coragem de dizer que tudo acabou. Preferem enganar as multidões, entre sorrisos falsos entre amigos e os fatídicos "está tudo bem" do que terminar esta fase que os desola. A consequência são a repetição destas noites que têm sempre o choro dela na cama enquanto ele se lamenta no sofá ainda acompanhado de uma bebida.

Nem todas as histórias acabam bem, têm aquele final feliz e bonito. Alguns têm na sua história páginas negras como esta. A história deste qualquer homem que se deixou levar por pecados da sociedade que o corromperam e fizeram perder a mulher que amava é da mais mundana que existe, e a tristeza dessa mulher que já não sabe o que é uma noite ao lado do homem que ama e de se sentir feliz é a sina de tantas outras mulheres neste mundo. Que o orgulho fique de lado quando se procura a felicidade.
A noite gelada, passível de ser igual a tantas outras de Inverno, trouxe consigo um adorno. O nevoeiro caiu sobre a cidade, apenas interrompida na sua poderosa plenitude pelas teimosas luzes de rua e pelas luzes dos carros que rasgavam o manto para seguir o seu caminho.

O frio era bem patente e fazia-se sentir com preponderância, bastava observar um qualquer transeunte que passava na rua embrulhado entre agasalhos que pareciam nunca trazer o calor necessário para o conforto que se queria.

Ele era como eles, mas embutido de uma missão. Entre casaco e cachecol ele tinha uma promessa a cumprir. De olhar fixo lá trespassava o nevoeiro de passo acertado rumo ao destino: o ponto de encontro. Tinha prometido à sua amada que estaria lá aquando a chegada dela, não ia deixar que um mero nevoeiro o quebrasse dessa demanda.

O nevoeiro retocava as ruas planas ao esconder o que vinha mais à frente e fazia das ruas a pique autênticas escaladas onde não vias o cume. Mudava-se assim a paisagem, a seu bel prazer.

Ao chegar, enquanto aguardava por aquele beijo quente da namorada, limitou-se ao silêncio e olhou em seu redor contemplando aquele manto que cobria a cidade. Um adorno tão singelo e simples que fazia tudo mudar, ou os carros não tivessem que desacelerar e as pessoas terem de acertar o passo por tamanha ofuscação vinda dos céus.

Ao fundo a pequena miragem torna-se mais certa e real. É ela que se aproxima do local acordado. Já de sorriso pronto ainda que faltando uns metros para o agarrar, ele já se sente presenteado. Eis que se beijam e aquecem o coração, como é apanágio. De mãos dadas seguem o seu caminho, entre o nevoeiro que serve de paisagem noturna.



À noite todos os gatos são pardos, lá diz a eterna frase de rua.

Ao cair do dia e ao nascer do seu final eles lá surgem. Munidos de toda uma confiança entre as roupas de marca que vestem, passando sempre pelo telemóvel que serve para marcar ou descobrir o spot daquela noite. O mundo é deles naquela noite que saem à rua, divertir é o objectivo, recorda-la é secundário. Nenhuma noite é igual, todas trazem diferentes encantos. Sozinhos ou em bando eles assaltam as ruas à procura de mais um momento, mais uma foto para o instastories, mais uma bebedeira entre amigos entre piropos e indirectas a quem agrada ao passar.
Que a aventura comece.

O que relato a seguir vem de uma noite em que aguardava estacionado em plena sexta-feira na baixa do Porto. Entre muitos que subiam e desciam as ruas sozinhos ou acompanhados (nem que fosse de cerveja), houve dois rapazes que me chamaram a atenção. 

Um deles era o confiante. O modo de andar, a audácia no olhar como que nenhuma mulher lhe escondesse algo que ele não antecipasse, o sorriso matreiro de quem anda no engate à mais tempo do que se imagina. O outro era o novato. Mais pacato, de mãos nos bolsos, retraído, sem grande expressões e mesmo bem apresentado seguia as pisadas do amigo.

Eis que interceptam um grupo de quatro mulheres. Chamo mulheres porque é mesmo esse o termo. Um grupo numa "girls night out" em que os maridos ficaram claramente em casa. Todas bem apresentadas e com a experiência mais do que vincada em cada uma. O modo de chamar a atenção foi simples: pediram lume. Após isso eis que o mais confiante tenta perceber onde as mulheres vão tomar um copo e se podiam ser mais dois a juntar à festa. Falaram durante minutos entre os sorrisos de experiência delas e os corações "inocentes" deles que pensavam ter tudo sob controlo.

O jogo seguiu sem que eles percebessem que estavam a ser levados. O mais tímido só dava um sorriso quando elas o olhavam quase em matilha à caça da presa; o outro ainda acreditava que estava no caminho certo e que ia ter uma história e pêras para contar aos amigos no dia a seguir. 

O desfecho foi fácil de antever: Uma mão de uma delas pousava no ombro do mais confiante como quem diz "Rapaz, é coisa para o meu filho ter a tua idade. Desiste, não tens o andamento que eu quero". Elas continuaram a sua vida com mais uma gargalhada a partilhar entre copos nessa noite sempre que se lembraram do que se passou, a noite em que dois miúdos tentaram a sua sorte e saiu furado. Eles lá "perderam" sem nunca perceberem muito bem como e de que modo fica o orgulho depois de tal desaire.

Para eles a sua irreverência nessa noite foi arma sem balas e como eles muitos outros "falham" na selva que pode ser uma saída à noite. É assim a noite para a malta, uma roleta russa em que se joga a diversão entre a sorte e o azar.





O dia começa a conhecer a desvanecer.
Com a escuridão das horas nocturnas certas luzes se acendem para iluminar algumas ruas. Elas saem para mais um dia, mais uma noite à procura de dar amor a quem queira, ainda que com tempo contado.

Umas apresentam-se à frente de um simples clube, de uma "pensão do amor" onde entregam o seu corpo a um qualquer estranho; já outras enfrentam a rua, fazendo das esquinas o seu forte e esperando pelos "habituais" que as procuram. Entre olhares frios de quem sabe que são um negócio a outros porém mais inocentes de quem não tem outra possibilidade de vida eis que se expõe assim, às luzes da cidade à espera de uma noite proveitosa. Com mais ou menos idade elas são as mulheres que a noite traz.

A clientela é diversa. Entre os engravatados que agitam o dinheiro para uma noite longe de casa e que as passeiam num qualquer carro de alta cilindrada com promessas de uma vida melhor, àqueles que procuram fugir da rotina de um casamento pouco feliz e aceitam uma noite de amor momentâneo a troco de um valor monetário sem nunca esquecer aqueles que vêem nestas mulheres a única hipótese de alguma vez ser amado.

Estas mulheres dão tudo de si, onde passam por serem um bem dispensável, a mulher "única" e por vezes ser um ombro amigo. Tudo isto numa noite de "negócios", onde o sentimento puro tem pouco lugar.

A noite já se prepara para dar a vez à manhã de um novo dia. É tempo de fazer as contas e terminar o seu ganha pão. É hora de voltar à sua vida (algumas para aquela mais digna do que a noturna) e repousar como puder. 

Quando a noite voltar é sinal de mais episódios onde o amor acontece ... mas tem um preço.


Porto, 21 horas.

A cidade já estava adornada com as cores da noite que tinha chegado.
Quem geria as lojas de rua prontamente preparava tudo para mais um dia de trabalho terminado. Eu mesmo me encontrava ali, nos Clérigos, à espera do sorriso da namorada como quem carimba a frase "por hoje está feito".

Mas antes disso acontecer é fatídico e inevitável que repares nos pormenores e na magia que traz a noite a uma cidade como o Porto. Enquanto aguardava por ela, sentado no carro e com a janela meia aberta, não pude deixar de virar atenções para um encontro peculiar.

Ela vinha a descer a rua, cabelo arranjado, um simples vestido e com um casaco de malha a dar um toque à indumentária daquela noite, naquela fase da vida que não é adequado perguntar a idade. No rosto trazia a expressão de felicidade, suspeição e preocupação mas nada a impedia de descer a rua. Ele vinha a subir. Casaco de padrão de três botões e lenço na lapela, cabelo grisalho e sapato engraxado. Ostentava um sorriso à medida que se aproximava dela, destino cada vez mais real a cada passo.

Rapidamente ficaram cara a cara. Apesar de dois beijos ser o modo mais sociável de poder começar um qualquer encontro na rua era claro que isto não era uma coincidência. Deram a mão como quem pede uma dança e disseram boa noite.
Ela estava envergonhada como se voltasse à juventude e um qualquer cavalheiro a convidasse para sair, ele continuava sorridente e feliz, como se o Mundo lhe tivesse dado o melhor momento do seu dia. 

"Isto não está certo. Sabes que isto já não é para nós, é para os jovens", aclamou ela. Ele continuou a agarrar-lhe a mão e tentou sossegar o seu espírito dizendo: "Não estamos a cometer nenhum mal. Faremos um passeio nesta noite tão bonita, vai fazer-nos bem. Se é para os jovens hoje somos de novo jovens então".

Durante alguns minutos ela continuava apreensiva com a ideia, talvez só naquele momento estivesse a reflectir se o "sim" que tinha dado como resposta ao encontro fosse realmente a resposta certa. Ele nunca desertou, tentou entre toques suaves no seu braço e cabelo confortar a mulher que ele queria ter do seu lado para o tal passeio nocturno.
Depois dos esforços dele, a mulher aceitou. Agarrou-lhe no braço e desceu a rua com ele enquanto conversavam. 

Ficou-me apenas no imaginário como pode ter corrido o encontro: se ele escolheu a Ribeira como paisagem ou passaram a ponte para ver o Mosteiro da Serra do Pilar. Se nunca lhe largou a mão e ficou por aí ou se foi mais "atrevido" a tentar um beijo se o momento assim o pedisse.

Seja como for fiquei embevecido, porque melhor do que apregoar que o amor não tem idade, testemunha-lo tem realmente outro encanto.











Domingo, 15 de Outubro de 2017.
O que sobejamente podia ser apenas mais uma data foi um domingo que jamais Portugal vai esquecer.

Já tínhamos testemunhado incêndios de grande escala recentemente (Pedrogão Grande não dá para esquecer), mas nada nos podia preparar para um dia como este. O inferno surgiu em todo o país em forma de labaredas. Centenas de fogos assolaram milhares de hectares, estradas foram cortadas e casas destruídas durante todo o dia e noite acumulando feridos e mortos e instalando o caos.

Todos os recursos parecem poucos, todos os esforços perante as chamas surgem como escassos ao ver as perdas. Voltamos a virar-nos para aqueles heróis sem capa que apelidamos de bombeiros que com as suas armas lá vão travando alguns pontos complicados de zona ardida. Aliados a eles surgem os habitantes daqueles que sentem na pele a Natureza a levar o que tanto tempo chamaram de casa.

Enquanto escrevo este texto observo as imagens que surgem na televisão e ouço os testemunhos. A força do fogo não é misericordiosa e leva tudo no seu caminho e ver que a salvação recai em nós, "simples" humanos, contra a impetuosa natureza (fogo e vento) não é uma batalha justa.

Ver o vermelho vivo entre florestas escuras e perceber que a esta hora muitos lutam por sobreviver mais um dia é devastador e desolador. É uma guerra sem vencedor, sem prémio. Esse desaparece no final. Todos os apoios e preces estão com eles e para eles neste momento difícil.

Aguardamos com ansiedade que este tormento pare o mais rapidamente possível. Que estas longas horas de sofrimento (pessoal ou até mesmo alheio) passem para que se possa voltar a respirar melhor. Portugal não merece sentir tal Inferno.