por Daniel André Teixeira'



A história que se segue é real.
Foi vista por mim, de perto, e demonstra bem que por vezes a ilusão desvanece com a realidade crua e dura quando a mesma nos aparece à frente.

Num qualquer restaurante fui para almoçar com a minha mãe.
Enquanto esperávamos mesa atrás de nós aguardava também um senhor. Idoso, bem arranjado, sorridente e munido de um bouquet de flores.Certamente era um dia especial.

O acaso fez com que as nossas mesas fossem paralelas, com uma diferença incontornável: o senhor continuava sozinho numa mesa para dois, pedida especificamente por ele. Com o passar do tempo colocou o ramo de flores no lugar vazio. Quando questionado pela empregada disse que as flores "eram de alguém que cá não está". No ar ficou a ideia que era uma espécie de homenagem, um possível recriar de um almoço que costumava ter com alguém já falecido, algo que enterneceu o coração da empregada que lhe dedicou um pouco mais de atençao.

O senhor lá almoçou (pouco), sempre cabisbaixo e sem dizer muitas palavras. A comida sobrava no prato enquanto a jarra do tinto da casa teimava em ficar vazia. Lá colocava as mãos na cara como se quisesse esconder-se da sociedade, daquele restaurante cheio. Algo não estava bem.

Eis que chama a empregada e lhe pede para que lhe tire uma fotografia, mas que a mesma apanhasse as flores que trouxe. "É uma recordação deste dia?" perguntou a empregada. "Não, é para enviar para o Facebook da pessoa que não apareceu" respondeu o senhor. A empregada estava em choque.

O senhor prontamente explicou o sucedido. Era viúvo, e após alguns tempos nas redes sociais foi mantendo contacto com uma senhora, jovem mulher essa que parecia ter todo o interesse em sair com o senhor. Até aquele momento estava sozinho mas poder voltar a sair com uma mulher deu-lhe esperança e a ilusão de poder voltar a ter uma vida a dois. Lá combinaram esta saída ("eu serei o senhor com um ramo de flores" disse o senhor, para ela o identificar no restaurante) mas sem apelo nem agrado a senhora faltou ao combinado e revirou a vida do senhor ao contrário, sem que tivesse direito a uma justificação.

Estive assim a testemunhar de perto uma situação em que ficou demonstrado o lado negro das redes sociais e da ilusão que pode trazer aos mais desprotegidos. Toda a conversa, a "companhia" no ecrã do telemóvel que ela lhe ia trazendo era apenas fachada sem conteúdo, apenas brincadeira para passar o tempo. Não sei como estaria a jovem senhora em questão, mas o senhor estava destroçado, abandonado e sozinho numa refeição que pouco sabor lhe teve.

Sempre cabisbaixo saiu ainda primeiro do que eu, visivelmente abatido com a situação. O cabelo outrora penteado estava desengonçado e com a camisa já de fora lá se dirigiu à porta. Nunca é tarde para aprendermos lições nesta vida, espero mesmo que para bem deste senhor esta situação tenha trazido mais uma: Não deixar que a ilusão destrua as coisas boas que a realidade nos traz.




O nome foi esquecido, por ele e pela sociedade.
Mais depressa é reconhecido por um qualquer serial number ou por fotos de reconhecimento num qualquer relatório. É mais um, inocente como muitos que são abandonados à sorte de uma vida sem a protecção de alguém que dignamente se pode apelidar de pais.

Órfãos de desígnio, muitos também de alma, tentam suportar esta vida entre paredes de orfanato resgatados de uma infância de maus tratos e podridão humana ... no entanto este teve um vislumbre de uma realidade melhor.

Numa certa tarde um casal pediu para adopta-lo. Era a chance de um recomeço. Prontamente trataram de o lavar e preparar uma roupa apresentável para seguir viagem com o casal. Não soltou qualquer palavra nem quando foi apresentado nem durante a viagem, qual mudo num mundo ruidoso. Apesar das tentativas para que o jovem reagisse tudo foi em vão, lá seguiu de olhar vazio mirando a paisagem que passava no seu vidro.
Entrou naquele que seria o seu quarto. Aí, sempre de maneira resguardada e tímida, lá ia pegando nos brinquedos deixados no chão pelo casal numa tentativa de integrar o jovem rapaz. Mas nada o fazia falar nem sorrir. O cenário à mesa não mudou de timbre e todos jantaram sem que o jovem larga-se uma palavra, apenas acenos com a cabeça.

Ao cair da noite eis que surge o pesadelo.
"Que ideia foi a tua de traze-lo?? Ele vem destruído, é esta a ideia de filho que queres mostrar? Estás satisfeita com a escolha, um rapaz que não fala, não reage??". Em plena sala ouve-se o discutir enquanto no andar de cima o pobre rapaz ouve tudo. A mulher por seu lado chora compulsivamente enquanto ouve o marido martirizar a esposa pela escolha. Ouvem-se copos a partir e portas a bater e um silêncio assombroso cai até ao final da noite. O rapaz sabe que a vida o trouxe de novo para um lar que não o vai cuidar e que o vai descartar de um futuro melhor.

Acorda cedo e ao descer as escadas o seu "pai" estava à porta. Depressa percebeu pela mala feita (que nunca foi desfeita) qual seria o destino da viagem. Era tempo de voltar ao orfanato. Já no carro, cabisbaixo e com lágrimas nos olhos, continuava calado enquanto a esposa tentava impedir o marido de devolver aquele infeliz rapaz. Ao chegar era bem audível os berros do homem para o director do orfanato como se o jovem fosse um qualquer bem que foi vendido com defeito e que por isso tinha de ser devolvido à loja. O lado desumano e selvagem foi patente, o homem não queria um filho assim, tudo enquanto o rapaz era levado para a sala comum. 

A senhora por seu lado não conseguiu ve-lo ser levado sem antes o abraçar. Falou-lhe ao ouvido dizendo "desculpa não termos sido a família que devias ter por direito" enquanto chorava no seu ombro. As portas de acesso à sala comum fecharam e ele lá estava com os outros meninos.
 
Foi sonho que virou pesadelo vivido em algumas horas. Fica a esperança no ar que no futuro ele e tantos outros tenham a chance de ter uma verdadeira família e assim serem felizes.

Tudo o que foi escrito em cima não é baseado numa história verídica, mas bem podia ser.




Os homens pensavam que ele tinha o emprego de uma vida.
Noite após noite elas desfilavam ao lado dele, trocando de quarto e de cliente, num qualquer local de divertimento nocturno. Com ou sem roupa, entre banhos e trocas de roupa rápidas porque a noite corre e o tempo não pára os olhos dele eram a sombra delas. Um negócio que ele geria e conhecia como a palma da mão.

Homem de poucas palavras, nunca foi visto sem o seu fato de alta costura italiana e sem o seu whisky com duas pedras sempre perto. O telemóvel vibrava constantemente porque o "mundo não pára de rodar" e o seu olhar era de constante atenção ao que o rodeava. Nada lhe escava, e nem podia ser de outra maneira. Tranquilamente se movia entre lounges e quartos onde tudo acontecia, sempre mudo mas com a figura de autoridade que quem era cliente sabia que devia respeitar.

Não tinha amigos, se os tinha nem se manifestavam.
Fugia a isso de afinidades ou afectos, desengane-se quem pensava que ao lhe pagar a rodada ou a conta fazia dessa pessoa um amigo. Era apenas mais um a querer um favor, uma entrada sem pagar ou um par de bebidas por conta da casa. Sempre foi assim, alguém a querer ser alguém à conta do patrão num mundo difícil. Não se deixava enganar com truques fáceis.
Não se deixa levar pela beleza da noite. Tanta mulher bonita podia ser a tentação perfeita para um coração de pedra ceder, mas mesmo estando de perto com tamanho poder de sedução ele não se deixa levar. Talvez todos estes anos de "negócio" lhe tenham criado o entrave de se poder apaixonar e deixar uma mulher cair neste mundo.

As chatices daquelas noites mais atribuladas não o faziam suar. Caso alguém fosse mais longe do que devia era uma questão de estalar os dedos que prontamente dois senhores bem constituídos entravam em acção retirando o senhor de dentro do quarto (a bem ou a mal) e mostravam-lhe a porta de saída mesmo que ainda não estivesse "apresentável" para estar nos passeios da cidade ... pequenos retoques na normalidade de uma noite no seu estabelecimento. 

A noite está próxima do seu fim e de repente desapareceu. É o primeiro a sair do local ainda com alguns clientes no salão e com o seu STAFF pronto para arrancar as limpezas e arrumar os copos e garrafas das mesas. Quando as mulheres saem já só vêem o lugar de estacionamento vazio porque o chefe não espera por ninguém. Aquele dia tinha terminado, amanhã lá voltará para pedir o seu whisky para mais uma "noite de negócios" ...

 

 Tão certa a sua presença como a facto de as portas abrirem à noite naquele bar.

Todos o procuram, sempre com uma bebida em mente, mas pelas mais variadas razões.
Ou porque querem uma bebida para acompanhar a noite, ou um copo para oferecer a alguém rumo à conquista nocturna ou simplesmente uma bebida para esquecer problemas mundanos.

A bebida é o mote geral, mas ele é bem mais do que um simples homem a cumprir o seu serviço. Mais do que um bartender ele torna-se um amigo, muitas vezes é o confessionário dos clientes que o abordam para mais um Gin depois das rodadas anteriores. Quase como se o mundo se confinasse entre o cliente e ele, com o balcão como encosto.

Impávido e sereno lá se mantém "limpo" na postura, entre limpeza de copos e o derramar de álcool num cálice entre pedras de gelo.
Seja qual for o desabafo era certo que nada sairia dali.
Atura com paciência de Jo todos os "loucos" que pedem rodada atrás de rodada como se a noite fosse para conquistar no imediato; Ouve o facto de aquele empresário de luxo num fato de marca de renome já não amar a mulher e passa o seu tempo entre copos e espera até a esposa já estar a dormir para voltar a casa; Comporta-se solenemente perante os desabafos das mulheres de alta sociedade que se queixam e fazem troça dos maridos que não têm noção da sua vida paralela com "aventuras" pela noite dentro; É o ombro amigo daqueles que naquele balcão dia após dia tentam afogar as mágoas de dívidas e problemas da vida.

Nenhum daqueles que recorrem a ele conseguem bem saber o que vai daquele lado.
Sabe-se que não é de muitas falas e que dá o seu tempo para ouvir os problemas e histórias do mundo que vai passando naquele bar, mas não se abre, como se todos os momentos de desabafo que ouve fazem parte do seu trabalho, como se fosse uma bebida servida igual a tantas outras que vai criar. Certamente por noite ouvirá histórias que dariam um livro, mas tal é o seu profissionalismo que eles voltam e confiam nele para lhe contar o seu dia.


Seja pela bebida, seja pela conversa ele vai lá estar.
Para mais uma noite "on the rocks" com histórias bem servidas em copo.






Podia ser só mais um casamento típico, mas assim não poderia ser o deles.
Mandaram para trás das costas o tradicional (dress code, uma ida penosa a uma igreja e uma panóplia de fotografias "oficiais"), fazem de uma qualquer bomba de gasolina um lugar de encontro rumo ao destino e mesmo com a chuva a aparecer como convidada criam um ambiente de convívio, de relacionamento entre amigos e conhecidos mesmo que nunca se tenham visto antes. O mundo deles, confinado em quase centena e meia de pessoas. 

Os Muse fazem-se ouvir e o estado ao olhar para cima era mesmo para "feeling good" ou não viesse a descer a noiva de chapéu de chuva com as suas Diadora nos pés. O mestre deixa-a ao lado do quase afónico noivo, num fato com pouco mais de um mês, para que se ouvissem os votos. Aí se viu mais um carimbo da singularidade do momento que estávamos a viver ou não fossem os votos da noiva o mais "abacalhado" possível (com pass do IRS pelo meio) para contrastar com um noivo que sacou das cordas vocais para tirar algo mais sentimental.

Depois foi tempo de felicitações à volta das mesas recheadas de petiscos bem regadas com o acompanhamento certo, ao som suave de melodia brasileira enquanto se raptam os noivos para tirar  fotos (mais tremidas ou não). 

Ao entrar entrar no salão principal lá se procura a mesa do Rock respectiva e lá vem o jantar. O convívio nunca deixou de existir, seja na mesa seja entre mesas. A ligação mesmo que não existisse antes foi criada seja por uma gargalhada, um episódio do momento ou porque os gostos a nível de copo eram os mesmos. Tínhamos todos a mesma boa razão para lá estar e isso fazia de todos nós família para quem nos rodeava.

As horas passaram e tudo ia sabendo bem. Tudo o que criaram para nós convidados foi soberbo e vivido de um modo que não dá para ser replicado. Quem lá esteve não pode duvidar que fez parte de uma noite memorável e única para os noivos mas também para os sortudos a quem eles deram o convite para estar lá naquele sábado de chuva. Somos afortunados por vos termos como amigos e por nos terem dado o privilégio de vermos mais um momento da vossa união como casal.

Obrigado por nos deixarem fazer parte do vosso mundo.