por Daniel André Teixeira'



O sol pode raiar mais um dia, mas a escuridão é sempre o seu melhor parceiro.
Longe das luzes, do revelador, do brilho de mais um dia ela vive ... ou sobrevive.

O nome não importa, não é relevante para a história. Ela é mais uma com o destino infortuno de viver uma vida a dois em sofrimento constante, sob o abuso de alguém que se considera o alfa da casa e que a cada acto violento que cria acredita que demonstra o seu domínio.

O homem que outrora amou agora é um monstro.
Um figura que só a vê como um alvo onde descarga todas as frustrações que o mundo lhe dá, e quando não é assim castiga-a com violência e sem dó quando vê "erros" na sua mulher. Aos olhos dele a imperfeição merece castigo e ela não se rebelia perante tal punição.

Anos constantes de abuso sem escrúpulos fizeram com que ela perdesse a noção do que pode ser a felicidade, do poder sorrir ao espelho, do poder caminhar livre como é. Em vez de uma vida feliz abraçou esta violência e sofrimento como algo normal, do qual não consegue fugir, vendo como presente inevitável. A sua vida é isto, e ela já sem forças para mudar.
Longe vai a mulher que já foi, agora é só um corpo sem alma nem vontade de saber como viver sem sem maltratada.

Diariamente ela lambe as suas feridas quando se vê sozinha. Tenta com a mais banal maquilhagem esconder o testemunho de violência da noite anterior, a rotina diária para poder enfrentar as horas que ainda estão para vir ... todas as forças são necessárias para enfrentar mais um dia de tormento.

Todos os dias esta é a história de alguma mulher. Todos os dias esta é a sua vida.
Temos de ser capazes de acabar com esta crueldade e poder mostrar a estas mulheres que o sofrimento que passam não tem de ser normal ou rotineiro.
STOP À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA.


A porta fechou.
Aquela pessoa saiu, não só de uma casa que outrora foi tecto de uma vida a dois mas também sai da vida daquela que fica.

O som da porta é ensurdecedor, difícil de evitar o seu eco ao longo das horas e momentos seguintes. É frio, sem sentimento, ignorando todos os outros momentos de luz e alegria que pairava noutras alturas.

O que fica do que passa é a força do que sobrevive. A alma de alguém que vê sair da sua vida uma pessoa especial é posta à prova pela vida. "Como viver sem o 'amanhã' que pensamos juntos?". Um caminho custoso, que nos faz questionar tudo o que somos e como nos comportamos. Minutos que parecem horas, horas que parecem dias.

É nessa altura que ha-que ser maior que o Mundo. É tempo de olhar para dentro, curar o que foi ferido e olhar o horizonte com a garra de quem o vai conquistar. O tal "Amanhã" pode não ser o planeado, mas terá que ser ainda melhor porque tu vais ainda cria-lo. 

Só assim as nuvens desaparecerem, só assim a chuva pára de cair. Evitando os clichês da vida, só se pode mesmo procurar o que de melhor ela tem. Portanto sorri, sê feliz e deixa-te encantar, só assim vais sobreviver sempre que as portas fechem e com isso te ameacem magoar com essa roda viva a que chamamos vida.

O amanhã começa contigo, sempre.



A noite caía naquela cidadela americana enquanto a chuva teimava em reinar. Ele, totalmente ensopado e ainda a ajeitar uma camisa mal passada por entre uma gravata mal amarrada lá se dirigia para a sua mesa usual. O ambiente suave é servido desde logo pela JukeBox que, pelo simples honorário de uma moeda, proporciona Blues e Jazz entre a agulha e o vinil que só por vezes se descuida e risca.

Ela chega. Mal sabe ela que é por ela, com a sua simplicidade munida de um avental sempre sujo e sorriso que não dá para ser indiferente, que ele saí do trabalho e invés de retornar a casa vai sempre aquele cantinho jantar. 

Ele lá pede aquela carne e batatas que só se pode dizer que se assemelha a uma refeição bem confeccionada e pede a sua cerveja, a sua fome pouco ou nada pelo prato. Enquanto brinca com a comida com o garfo e valentemente tenta colocar à boca não deixa que ela saia de vista. Só o facto de a ver tranquilamente e a rir enquanto limpa o balcão já o fazia quase esquecer onde estava.

Enquanto a JukeBox tocava "Georgia on my Mind" ou o "You don't know me" ele dava voltas à cabeça de como falar com ela de um modo mais especial e não apenas o "sim, o jantar está óptimo como sempre" sempre que ela passava pela sua mesa.

As horas passavam e o tempo de fecho avizinhava-se, ele estava a ficar sem tempo.  Já só restava ele e ela naquele singelo restaurante. Eis que num momento de loucura instantânea ele se levanta da mesa e se dirige à JukeBox. Com uma certeza que nunca sentiu sacou de uma moeda e escolheu. Seria Ray Charles, "That's All". 

Suavemente se dirigiu a ela e pediu que dançasse com ela. Ao ouvido confessou "é por ti que estou aqui sempre, acho que já nem consigo mastigar mais aquele bife". Ambos sorriram e enquanto Ray Charles os embalava eles estavam sozinhos no Mundo.
A música continuou e ele lá acompanharam até ao fim, até que as moedas acabassem, mesmo que a JukeBox teimasse em desafinar.

Chovia naquela simples cidadela americana, mas dentro daquele "Dinner" não havia mais nada a não ser música.




Mulher não é género, é estatuto.

É força da Natureza.

É carácter inquestionável.

É beleza única e singular.

É sedução e risco.

É causa e consequência.

Mulher é poder, poder esse sentido todos os dias na nossa sociedade.


O poder está em todas, todas aquelas que se apelidam de mulheres independentemente do que a sociedade lhes trouxe.

Falo das influencers que servem de modelo nas redes sociais para quem as seguem, das mulheres poderosas nos seus empregos e casas que se mostram como fonte de inspiração para o Mundo e para as suas pares (e educam os seus filhos entre Luz e Trevas); das que todos os dias tentam provar o seu valor para que o mérito seja a sua maior medalha na procura da felicidade sem nunca esquecer as mulheres que a sociedade parece esquecer, martirizar e escravizar. Aquelas que o #metoo simboliza e que serve de ténue escudo de defesa e voz perante o sofrimento que a vida lhe traz também tem, mesmo em silencio, uma energia interior que lhes concede um respeito maior.

Das louvadas e invejadas até às esquecidas e usadas ... todas são "Mulher", com a essência e personalidade que emana esse estatuto.


Todos nós temos mulheres nas nossas vidas que nos marcam ou marcaram e por isso devemos louvar o que são e como são neste nosso Mundo. O dia apenas serve para recordar que elas são mais do que uma imagem. Portanto mima como melhor souberes: com aquela prenda que sabes que ela vai gostar mesmo que seja simbólica, com aquela SMS só a recordar durante o dia do quanto gostas dela e a queres na tua vida ou o simples mas poderoso "amo-te muito" quando estiveres a sair de casa ... mas não o faças só hoje.

Que o Mundo prossiga em ter mulheres fortes e com personalidade, nós como homens só temos a ganhar com isso.

Feliz Dia da Mulher.


A história que se segue é real.
Foi vista por mim, de perto, e demonstra bem que por vezes a ilusão desvanece com a realidade crua e dura quando a mesma nos aparece à frente.

Num qualquer restaurante fui para almoçar com a minha mãe.
Enquanto esperávamos mesa atrás de nós aguardava também um senhor. Idoso, bem arranjado, sorridente e munido de um bouquet de flores.Certamente era um dia especial.

O acaso fez com que as nossas mesas fossem paralelas, com uma diferença incontornável: o senhor continuava sozinho numa mesa para dois, pedida especificamente por ele. Com o passar do tempo colocou o ramo de flores no lugar vazio. Quando questionado pela empregada disse que as flores "eram de alguém que cá não está". No ar ficou a ideia que era uma espécie de homenagem, um possível recriar de um almoço que costumava ter com alguém já falecido, algo que enterneceu o coração da empregada que lhe dedicou um pouco mais de atençao.

O senhor lá almoçou (pouco), sempre cabisbaixo e sem dizer muitas palavras. A comida sobrava no prato enquanto a jarra do tinto da casa teimava em ficar vazia. Lá colocava as mãos na cara como se quisesse esconder-se da sociedade, daquele restaurante cheio. Algo não estava bem.

Eis que chama a empregada e lhe pede para que lhe tire uma fotografia, mas que a mesma apanhasse as flores que trouxe. "É uma recordação deste dia?" perguntou a empregada. "Não, é para enviar para o Facebook da pessoa que não apareceu" respondeu o senhor. A empregada estava em choque.

O senhor prontamente explicou o sucedido. Era viúvo, e após alguns tempos nas redes sociais foi mantendo contacto com uma senhora, jovem mulher essa que parecia ter todo o interesse em sair com o senhor. Até aquele momento estava sozinho mas poder voltar a sair com uma mulher deu-lhe esperança e a ilusão de poder voltar a ter uma vida a dois. Lá combinaram esta saída ("eu serei o senhor com um ramo de flores" disse o senhor, para ela o identificar no restaurante) mas sem apelo nem agrado a senhora faltou ao combinado e revirou a vida do senhor ao contrário, sem que tivesse direito a uma justificação.

Estive assim a testemunhar de perto uma situação em que ficou demonstrado o lado negro das redes sociais e da ilusão que pode trazer aos mais desprotegidos. Toda a conversa, a "companhia" no ecrã do telemóvel que ela lhe ia trazendo era apenas fachada sem conteúdo, apenas brincadeira para passar o tempo. Não sei como estaria a jovem senhora em questão, mas o senhor estava destroçado, abandonado e sozinho numa refeição que pouco sabor lhe teve.

Sempre cabisbaixo saiu ainda primeiro do que eu, visivelmente abatido com a situação. O cabelo outrora penteado estava desengonçado e com a camisa já de fora lá se dirigiu à porta. Nunca é tarde para aprendermos lições nesta vida, espero mesmo que para bem deste senhor esta situação tenha trazido mais uma: Não deixar que a ilusão destrua as coisas boas que a realidade nos traz.