por Daniel André Teixeira'




Preciso de outra história, outro conteúdo entre as capa e a contracapa desta vida para a minha aborrecida existência.

Neste mundo já nada me encanta, entusiasma ou cativa.
Não há fenómeno soberbo, nem sedução arrebatadora.
Não há canção que chame, não há paisagem que inspire, não há pessoa que me aproxime.

Tudo tornou-se mundano, chato, sem vida ou essência.
Parecemos concordar na aceitação que vivemos para morrer e não vemos mal nesse veneno que condena a sociedade. Seguimos vivendo, sem que a vida nos dê as cores que a pintam verdadeiramente..

Não acredito em promessas, em política, em farsas ou versos escritos com poesia vazia.
Não me vendo nem revejo nos valores que se levantam, não sou símbolo nem imagem, sou no anonimato mais um que não se insurge. 

Sou mais um, só mais uma sombra ou figurante nesta história de livro sem graça.

Se o Mundo pode mudar? Não sei, mas há quem já não queira ter a força de o mudar ou de o ver transformar. É assim que me apresento e se outra história não se cruzar o no meu caminho sei bem qual será o meu fim ... e a escuridão nunca fez tanto sentido.





"A senhora pode esclarecer o Tribunal e explicar o que se passou naquela noite?"

A pergunta era clara e direccionada a ela.
Porém nunca a resposta foi tão complexa e complicada de criar ou exprimir.

A fatídica noite começou como sendo uma das demais rotineiras desta vida.
Ela seguiu para casa após um café. Sozinha, serena, simplesmente a fazer o caminho para poder finalmente descansar no seu lar. 
Apanhou o comboio, o último daquele dia. Seguiam nele mais quatro pessoas, desconhecidas umas das outras, apenas à espera da sua estação de saída. Entre solavancos a viagem continuava, mas iria ter um rumo inesperado.

 Eis que o comboio pára e ele entra. 
Mudo, olhar frio e emsamblante carregado de quem se calhar tinha afogado as mágoas num final de uma garrafa. Lentamente encosta-se a um dos postes da carruagem. Perante os solavancos do velho comboio nocturno eis que acidentalmente bate num dos passageiros que prontamente lhe berra "Vê se te seguras seu bêbado!! Seu vagabundo". O olhar frio virou de raiva e sem contemplação saca uma faca do casaco e ataca o passageiro veemente com várias facadas no peito. Perante o sangue desvariado e os berros dos outros passageiros ele, sedento e cego, procura-os e volta a disferir facadas constantes sem dó da dor que provocava. Quatro mortes sem dó nem piedade, sem razão ou argumento.

Ensaguentado procura mais vítimas e eis que a encontra. Porém ela não gritou. Apenas ofegante com toda a situação encontrava-se abaixada e abrigada entre bancos de comboio na esperança de aquela não ser a sua última noite. Eis que o olha nos olhos e, quem sabe por magia, ela não viu o monstro que esfaqueou quatro almas em poucos minutos; Ele, mesmo empenhando alta a faca ensaguentada, não a atacou. Apenas respirava a alto ritmo e fulgor como se a mente não deixasse que a faca magoasse aquela mulher.

O entrelaçar de olhar continuou intenso. Entre o silêncio ela suavemente colocou a sua mão na cara dele, mesmo enquanto ele não arredava de ter a faca em riste. Ela viu algo ali, um sentimento que superou o medo e o horror. Lentamente chegou a ele de tal modo ternurento e próximo que ele acaba por largar a faca e ficou sem reação perante tal gesto. Com lágrimas nos olhos a escorrer na cara cheia de sangue aproveitou a paragem do comboio e saiu a correr da carruagem. Ela manteve-se estática e sem reacção. 

Mais tarde ele foi encontrado por um agente que, ao ver todo aquele vermelho "pintado" nas roupas dele o deteve. Confessou o crime quase sem pressão e mais tarde encontraram-na para ela poder prestar declarações sobre o que se tinha passado. E ali estavam de novo no mesmo lugar, desta vez sob o olhar atento da justiça.

Enquanto testemunhava tentava não olhar para ele, com receio de magoa-lo como quem é a força final que o vai condenar. A mulher que amou o monstro estava ali, a dizer ao mundo que aquele homem assassinou quatro pessoas, mas não conseguia dizer que o ama desde essa noite.

Sai em lágrimas do tribunal por saber que ele seria condenado sem contemplação ... e sem nunca lhe poder dizer o que sente. Ela viu o horror, mas sem explicação amou a criatura que o fez.





O mundo é feito dos contrastes inegáveis e flagrantes.
Poetizando e suavizando com bonitas palavras podemos afirmar que é um mundo de luas, de diferenças, de toques e retoques, de forças e fraquezas, enfim como nós mundanos apelidamos de "altos e baixos".

Uns possuem o ouro desta vida, o facilitismo, as conquistas deste mundo à mão de um simples desejo ou prazer como se a realidade utópica fosse servida numa bandeja de prata de um refinado restaurante. Não há problema sem solução, não há obstáculos inconvenientes para as vitórias pessoais. A vida presenteou-os com essa dádiva da despreocupação com o alheio, onde só a sua zona de conforto é fulcral para a sobrevivência. Boas roupas, casa com ostentação e luxo, carro a estrear, ao seu lado um conjugue que foi bradado com a mesma dádiva. Um mundo dentro de um outro que apenas serve de paisagem adicional a um estilo de vida que cria na sociedade uma elite de "Reis". Não são intocáveis, mas estão no confortável camarote deste teatro onde a peça principal é a vida.

Outros lutam por cada hora e por cada luxo que esta vida lhes lembre de proporcionar.
Esses sentem cada capricho, cada frio na espinha, cada golpe que a sociedade se lhes apronta. O seu micro mundo está subjugado na vida mundana dos demais. O infortúnio em pessoa, a figura de alguém que parece ter sido esquecido e ostracizado num mundo que tanto se apregoa que se quer justo e equilibrado. Os seus esforços são sucessivos, a sua luta é interminável. Cada canto pode ser uma "casa", cada resto pode ser a "refeição", cada trapo é o seus vestir ... São os "Vagabundos", aqueles que no mesmo teatro são os figurantes sem importância, triste e sem valor real para o desenrolar da história que os "Reis" em cima sentados aplaudem sempre a sorrir e a festejar.

É o contraste de um Mundo, facilmente replicado na nossa sociedade estejamos em que lugar for.
Porque esta peça de teatro nunca acaba, apenas tem maneiras de mudar a história.




Última exibição daquela sessão circense.
O público vibra com o espectáculo, não há uma alma que não sorria com o entretenimento servido naquela noite. Entre adereços e brincadeiras o público responde com gargalhadas que se espalham na tenda do Circo. É em apoteose que o palhaço progride com o seu momento, onde o seu ridículo é aclamado como uma obra de arte que merece aplausos na vénia final.
É assim mais um serão do feliz palhaço de circo.

Mas eis que a cortina cai e tudo muda.
As luzes do espectáculo se desligam e o público volta para suas casas. O último protagonista retira-se e volta para o seu camarim. A cara de alegria do palhaço que minutos antes divertia a multidão muda de semblante. Enquanto limpa a cara retirando a maquilhagem com um pano velho e molhado não consegue conter o sofrimento, o desgaste, a fadiga de quem parece que a vida e a felicidade que podia vir dela nunca lhe foi dada. O seu camarim desarrumado e carecido de ostentação pessoal é a imagem de alguém quebrado pela rotina. Procura numa fogaz bebida e numa mão cheia de comprimidos um possível escape enquanto tenta tranquilizar uma cabeça já pouco consciente da realidade e que anseia por repouso. Fecha os olhos e tenta procurar na sua mente um lugar melhor, limpo, que possa ser mais apaziguador para a sua alma e que o faça sobreviver mais um dia da sua vida.

De nada suspeitam aqueles que tranquilamente voltaram a suas casas depois do espectáculo. Com elas vai a imagem de um palhaço que protagonizou momentos de gargalhada e boa disposição em meia dúzia de minutos que alegrou assim a sua noite. Jamais poderiam antecipar que o mesmo corpo que aguentou quedas hilariantes e cremes de tarte na cara para seu prazer é o mesmo que agora sofre, sem forças, calado, entre os seus comprimidos e bebida barata. Muitos falam da "magia do circo", mas ele há muito que deixou de sentir essa magia.

Como é possível que a mesma pessoa que sofre diariamente consiga, apenas escudado com roupas extravagantes e jocosas e maquilhagem berrante, ser o foco de uma alegria quase inesgotável aparecendo aos espectadores com o propósito singelo e solene de as fazer rir para poder ser feliz também? Como é possível viver com a alegria e a tristeza na mesma pessoa, na mesma consciência?
Até onde se pode manter esse equilíbrio sem deixar que a força má vença o duelo?


O Mundo tem destes contrastes, neste circo que é a vida.





O meu turno de hoje vai a meio, mas é como se o dia fosse sempre o mesmo. 
Muitos entram e saem deste bar. Sejam "zé ninguém" ou até alguns daqueles que aparecem nos media destes dias aqui todos são iguais aos seus pares. Sentam-se, consomem do mais rasca dos licores ao mais fino dos sabores de garrafa com referência cara e assim se desligam do Mundo.

É sempre um entra e sai, nem sempre com a maior das classes, mas menos para um senhor que só vê a rua quando estas portas se fecham. No sítio do costume, sempre ao canto do balcão, ele ali estava com a garrafa a poucos centímetros do seu alcance. Não lhe saem muitas palavras da boca, só me chegava a ele quando o seu braço se levantava como quem pede uma outra garrafa para substituir aquela que está vazia. Nem mesmo quando limpava o balcão ele cria alguma ligação humana. É apenas um corpo que se sustenta de goles constantes de bebida para poder prevalecer neste Mundo.

A rotina dele era tal que passava como invisível para todos que frequentam o bar ... e ele não fez questão de mudar o cenário. Ficava muitas vezes a pensar se ele conseguia ver algo de positivo no fundo de cada garrafa que consumia. Se alguma luz ou sabedoria vinha dos goles profundos que dava. Do modo como deixava resignado a nota com que pagava (sem pedir troco) no balcao e voltava a ajeitar a gravata enquanto saía percebia que todo aquele escape "terapêutico" alcoólico de nada serviu. 

Hoje, num momento mais parado, limpei o balcão e peguei no jornal. Ele estava lá ... dado como morto. Suicidou-se durante a madrugada deixando junto do seu corpo uma carta de despedida e desespero pela vida pobre e sem alegria que deixava. 

Todos os dia o via, todos os dias passava ao lado da sociedade.
Agora partiu, sem brilho e sem ninguém realmente saber como se sentia. 
Fim da linha, como uma garrafa que terminou.